
A estatueta usada pela Xuxa contribuiu para contar a história da despedida ou acabou desviando toda a atenção?
A polêmica envolvendo o nome da apresentadora Xuxa começou depois da estreia da turnê “O Último Voo da Nave”, no sábado, 25 de julho, em São Paulo. Xuxa usou um corpo muito cavado, com recortes que, vistos por trás, lembravam um fio-dental e deixavam grande parte da virilha à mostra.
Parte do público atualmente o visual é sexualizado e distante da imagem afetiva e lúdica que esperava encontrar em um espetáculo de despedida da nave.
Como acontece rotineiramente na internet, uma conversa rapidamente deixou de ser apenas sobre a roupa. Passou a envolver idade, política, comportamento, passado, incoerências, moralidade e até a relação emocional que cada pessoa mantém com a apresentadora.
Como esta coluna fala sobre imagem pessoal, vou me concentrar nessa questão.
O erro mais evidente estava na modelagem do corpo, uma espécie de traje usado pela apresentadara. Estatueta de palco não é roupa cotidiana. Ele precisa operar à distância, sob iluminação intensa, em movimento e em conjunto com telões, coreografias e adereços. Em uma fotografia aproximada ou em um quadro desfavorável, um recorte pode parecer muito mais próximo do que parecia para quem assistia ao espetáculo presencial.
Ainda assim, a cava do corpo era muito profunda e sua base, a parte que se encaixava entre as pernas, era muito estreita. Caso a cava fosse menor e a base mais larga, provavelmente seria possível evitar a impressão de que a peça estava mostrando demais uma área tão próxima à região íntima.
Um ponto importante também precisa ser considerado: o show percorreu várias fases da carreira de Xuxa, com diversas trocas de roupa e referências a personagens e estéticas diferentes, inclusive uma estatueta inspirada em She-Ra.
Portanto, a escolha daquela roupa não estava completamente desconectada da trajetória da apresentadara. A ideia tinha relação com sua história, mas a modelagem foi mal realizada.
Quando analisamos a imagem de Xuxa, também existe uma crítica legítima relacionada à coerência entre a estatueta e a mensagem do espetáculo.
Ela recebeu o título de Rainha dos Baixinhos graças às décadas dedicadas a apresentar programas de televisão, gravar músicas, fazer filmes e licenciar produtos voltados principalmente para o público infantil.
O público que comprou o ingresso não adquiriu apenas uma apresentação musical. Comprou uma experiência baseada em nostalgia, infância, nave, Paquitas e na memória afetiva da Rainha dos Baixinhos.
Quando a estatueta comunica uma sensualidade muito explícita, pode surgir um ruído entre essa expectativa emocional e aquilo que aparece no palco. Não porque Xuxa não possa ser sensual, mas porque toda escolha visual cria uma narrativa.
O problema não é ela estar velha demais, muito menos o corpo dela. Considerar que uma mulher não deveria mostrar o corpo simplesmente porque envelheceu é puro preconceito. Aliás, Xuxa é belíssima. Independentemente da idade ou do corpo, ela pode usar o que quiser.
Mas toda escolha tem uma consequência na comunicação da imagem.
E isso nos leva a uma pergunta mais interessante: aquele recorte profundo contribuiu para contar a história da despedida ou acabou desviando toda a atenção da história?
Quando a roupa virou o assunto principal e o espetáculo fica em segundo plano, provavelmente houve uma falha de comunicação visual, mesmo que a estatueta fosse ousada, moderna e tivesse conexão com as roupas usadas por Xuxa durante sua trajetória profissional.
Isso não significa que toda a ocorrência negativa tenha sido provocada apenas pelo corpo. Na vida real e nas redes sociais, aparentemente julgamos somente aquilo que está diante dos nossos olhos. Julgamos também tudo o que já pensamos sobre aquela pessoa e todo o contexto no qual ela está inserida.
A parte do público não estava olhando apenas para a roupa. Estava olhando para a Xuxa de hoje, para suas declarações, para seus posicionamentos políticos e para as incoerências que acredita perceber entre o discurso atual e sua trajetória. Em ano eleitoral, essa mistura se torna ainda mais intensa. Artistas deixam de ser avaliados apenas pelo trabalho e passam a ser vistos como representantes de um lado político.
Quando gostamos de alguém, tendemos a especificar suas escolhas. Quando não gostamos, qualquer erro se transforma em confirmação de tudo aquilo que já pensávamos.
Consultoria de imagem não é determinar se alguém pode ou não vestir. É compreender o que cada escolha comunica, dentro de um determinado contexto, para um determinado público. Xuxa poderia usar aquela roupa. Mas liberdade de escolha não elimina os efeitos da comunicação.
A roupa não define o caráter, o talento ou o valor de ninguém. Ainda assim, ela participa da mensagem, interfere na percepção e ajuda, ou atrapalha, a história que se pretende contar. Ter liberdade para vestir é um direito. Entender o que a roupa comunica é estratégia.