Riscos dos desafios digitais: como proteger as crianças

Mortes em MS reacendem alerta sobre práticas que transformam perigo em brincadeira e fáceis

Sem dimensão do risco, crianças confundem desafios virtuais com pertencimento
Imagem ilustrativa feita por IA mostra as mãos de uma criança utilizando um celular, enquanto mulher aparece desfocada ao fundo

Na última semana, dois casos envolvendo crianças e adolescentes em Mato Grosso do Sul voltaram a colocar em discussão os riscos de desafios e interações perigosas no ambiente digital.

Dois casos envolvendo crianças em Mato Grosso do Sul reacenderam o alerta sobre desafios perigosos na internet. Em São Gabriel do Oeste, um menino de 8 anos morreu sob suspeitas de envolvimento com o desafio do desodorante aerossol, e em Naviraí, um adolescente de 13 anos sofreu pressão em grupo virtual. Os especialistas alertam que a prevenção exige diálogo aberto, educação digital contínua e parceria entre família e escola.

Em São Gabriel do Oeste, a morte de um menino de 8 anos passou a ser investigada sob a suspeita de ligação com uma prática envolvida desodorante aerossol, difundida na internet como desafio. Em Naviraí, a Polícia Civil apura se um adolescente de 13 anos teria sido submetido a pressão, humilhação e manipulação psicológica dentro de um grupo virtual.

As situações ainda dependem de investigação e não permitem afirmar que as mortes tenham sido provocadas diretamente por desafios digitais. Os dois casos, no entanto, reacendem um alerta já registado meses antes no Estado.

Em março, uma menina de 9 anos morreu em Campo Grande. Um frasco de desodorante aerossol foi encontrado próximo à criança, e a suspeita inicial também apontou para a possível reprodução de um desafio divulgado nas redes sociais. Assim como nos episódios recentes, a hipótese depende de confirmação por exames e investigação policial.

A repetição de casos com características semelhantes expõe um problema que não pode ser limitado a desobediência, falta de disciplina ou curiosidade excessiva. Crianças pequenas ainda não têm condições de avaliar consequências graves e irreversíveis, especialmente quando o perigo é apresentado como diversão.

A psicóloga Camila Menezes, professora do curso de Psicologia da Uniderp, explica que a infância é marcada pela exploração, pela imitação e pela busca de novas experiências. O risco aparece quando essa curiosidade encontra conteúdos desenhados para gerar adesão, exposição e reconhecimento.

“As crianças são naturalmente curiosas e aprendem por meio da exploração, das brincadeiras e da imitação. No entanto, elas ainda não possuem atualização cognitiva e emocional suficiente para avaliar riscos”, afirma.

Segundo Camila, a participação em uma prática perigosa pode ser estimulada pela impulsividade, pela influência dos colegas e pela necessidade de pertencimento. Nessas situações, a percepção do perigo perde espaço para a possibilidade de ser aceito ou reconhecido pelo grupo.

“Quanto menor a criança, maior a dificuldade em compreender que determinadas consequências podem ser graves ou irreversíveis”, alerta.

Perigo disfarçado de brincadeira – Para uma criança de 8 ou 9 anos, um vídeo curto, repetido por outras pessoas e acompanhado de risadas, curtidas ou comentários pode parecer apenas uma brincadeira compartilhada. A capacidade de antecipar o resultado de uma ação ainda está em desenvolvimento.

Camila afirma que crianças nessa faixa etária não compreendem plenamente as consequências de práticas apresentadas como diversão na internet.

“O ambiente digital potencializa esse cenário ao oferecer estímulos imediatos, desafios que parecem inofensivos e mecanismos de validação social que diminuem a percepção do risco”, explica.

A psicóloga ressalta que o comportamento não deve ser interpretado apenas como falta de obediência. Existe uma limitação ligada ao próprio desenvolvimento infantil, agravada pelo funcionamento das plataformas digitais.

Curtidas, comentários e compartilhamentos atuam como formas de recompensa imediata. Para crianças e adolescentes que buscam acesso, essa aprovação pode pesar mais do que um perigo abstrato que eles ainda não oferecem dimensionalmente.

“Muitas crianças não participam desses desafios porque querem se colocar em perigo, mas porque interpretam a situação como uma brincadeira compartilhada e socialmente valorizada”, afirma Camila.

O problema, portanto, não começa apenas quando uma criança tenta reproduzir determinada prática. Ele começa antes, quando o conteúdo perigoso é apresentado como engraçado, popular ou capaz de garantir o reconhecimento.

Proibição não resolver – Diante de casos graves, um acontecimento imediato costuma ser proibir celulares, cancelar o acesso às redes ou aumentar a vigilância. As medidas podem limitar temporariamente a exposição, mas não ensinam à criança a confidencialidade dos riscos quando estiverem longe dos responsáveis.

Para uma psicóloga, o caminho mais eficaz não é o silêncio nem uma conversa baseada exclusivamente no medo.

“A estratégia eficaz não é evitar totalmente o assunto, mas abordá-lo de forma aberta, acolhedora e compatível com a idade da criança. Conversas baseadas apenas no medo ou na exclusão tendem a ser menos eficazes do que aqueles que explicam os riscos, estimulam perguntas e fortalecem a confiança entre pais e filhos”, diz.

A docente Glauce Soares Casimiro, dos cursos de Pedagogia, Psicologia e Administração da Universidade Anhanguera-Uniderp, avalia que a mesma lógica deve ser aplicada pelas escolas.

Segundo ela, a abordagem precisa evitar a divulgação de nomes, formas de execução ou detalhes que possam estimular a reprodução das práticas.

“O foco precisa estar no desenvolvimento do pensamento crítico, da educação digital, do cuidado com a vida e da promoção de uma cultura de proteção”, afirma.

A restrição ao celular na sala de aula pode reduzir distrações e dificultar o acesso imediato a determinados conteúdos, mas não elimina o problema. Fora da escolacrianças e adolescentes continuam expostos às mesmas redes, grupos e mecanismos de influência.

“A prevenção depende, sobretudo, de uma educação digital contínua, que crianças e adolescentes utilizam a tecnologia de forma ética, segura e consciente”, explica Glauce.

Para ela, os estudantes precisam aprender a avaliar informações, considerar situações de risco e compreender que ações realizadas no ambiente virtual podem produzir consequências concretas.

Sem dimensão do risco, crianças confundem desafios virtuais com pertencimento
Conversa atribuída a membros do grupo mostra insultos, humilhações e mensagens que incentivavam um adolescente a tirar a própria vida (Foto: Direto das Ruas)

Mudanças desativar atenção – A identificação precoce de uma situação de risco depende do conhecimento que pais, responsáveis ​​e educadores têm sobre o comportamento habitual da criança.

Camila ressalta que não existe uma lista capaz de comprovar que uma criança esteja escondendo conversas, conteúdos ou experiências perigosas. Mudanças de comportamento podem ter causas diferentes e precisam ser comprovadas dentro do contexto de cada criança.

“Cada criança é única e todo comportamento precisa ser entendido a partir de sua subjetividade, de sua história de vida, do contexto familiar e da fase de desenvolvimento em que se encontra”, afirma.

Isolamento, irritabilidade, alterações no sono, queda no rendimento escolar, resistência ao uso dos dispositivos ou uma necessidade repentina de privacidade podem indicar que algo merece atenção. Nenhum desses comportamentos, porém, confirma sozinho a existência de um problema relacionado à internet.

“O comportamento infantil é uma forma de expressão e, muitas vezes, revela dificuldades, angústias ou necessidades que a criança ainda não consegue colocar em palavras”, diz Camila.

N / D escolasinais como conversas recorrentes sobre um assunto não explicado, uso reservado do celular, incentivos entre colegas, medo de contar o que aconteceu ou comentários de que “todo mundo está fazendo” também devem lançar o alerta.

Glauce reforça que esses fingidos não servem como prova, mas justificam uma aproximação cuidadosa.

“Isoladamente, esses sinais não confirmam a existência de um desafio perigoso, mas indicam a necessidade de diálogo, escuta atenta e acompanhamento por parte da escola e da família”, afirma.

Acolher antes de punir – Quando uma criança relata que recebeu, presencia ou participou de um desafio perigoso, a ocorrência do adulto pode definir se ela continuará contando o que acontece no ambiente digital.

Repreensão imediata, gritos ou ameaças podem aumentar o medo e fazer com que outras informações sejam escondidas.

“A primeira atitude deve ser acolher a criança com escuta ativa e serenidade, ouvindo seu relato sem julgamentos”, orienta Glauce.

Depois do acolhimento, a escola deve registrar a situação em conformidade com os protocolos internos, comunicar à família e avaliar a necessidade de envolver a equipe pedagógica e os serviços de proteção.

Nos casos em que haja risco à supervisão da criança ou de outros estudantes, podem ser acionados o Conselho Tutelar e os órgãos policiais especializados.

“O objetivo principal deve ser proteger o aluno, interromper a circulação do conteúdo e fortalecer ações educativas para toda a comunidade escolar”, afirma o docente.

A prevenção depende de uma atuação conjunta. Não adianta a escola falar sobre segurança digital enquanto a família ignora o que uma criança assiste. Também é insuficiente controlar o celular em casa sem que a escola trabalhe pensamento crítico, responsabilidade e convivência no ambiente virtual.

“Uma parceria entre escola e família é o principal fator de proteção”, destaca Glauce.

Camila defende que os responsáveis ​​deixem de agir apenas como fiscais e assumam o papel de referência seguro.

“Em vez de agir como investigador, os responsáveis ​​precisam se posicionar como uma base segura, capaz de escutar, compreender e orientar”, afirma.

Os casos registrados em Mato Grosso do Sul mostram que o debate não pode surgir apenas após uma morte. A velocidade com que os conteúdos circulam exige uma prevenção permanente, feita antes que uma prática perigosa chegue ao celular de uma criança com aparência de brincadeira.

Sem dimensão do risco, crianças confundem desafios virtuais com pertencimento

A enquete de domingo do Notícias Campo Grande mostra que a maioria dos participantes não muda a forma de acompanhar o que os filhos acessam na internet durante as férias. Ao todo, 33% afirmaram que mantêm a mesma rotina de fiscalização ao longo de todo o ano. Outros 27% disseram intensificar o acompanhamento nesse período, enquanto 23% responderam que não costumam fiscalizar o acesso dos filhos à internet. Já 17% informaram que só passaram a monitorar mais de perto quando perceberam algum comportamento diferente.

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