Pecuária brasileira: China pressiona arroba até setembro

Pesquisador do Cepea avalia que o mercado vive fase de transição e aposta em recuperação dos preços

Pressão sobre arroba deve ir até setembro, mas cenário segue favorável ao Brasil
Pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), Thiago Bernardino de Carvalho (Foto: Grupo Aliança/Divulgação)

O principal desafio da pecuária brasileira neste momento é não produzir mais carne, mas encontrar mercados capazes de absorver parte da produção enquanto a China reduz temporariamente o ritmo de compras dentro da atual cota de importação. Essa necessidade de redistribuir os embarques explica a volatilidade observada nas últimas semanas e deve manter pressão sobre a arroba até meados de setembro, avalia o pesquisador do Cepea/Esalq/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), Thiago Bernardino de Carvalho, uma das principais referências brasileiras em economia da pecuária, formação de preços e análise dos ciclos pecuários.

A pecuária brasileira vive um momento de transição, com pressão sobre a arroba até meados de setembro devido à redução temporária das compras da China, mas com expectativa de recuperação no último trimestre. Segundo o Cepea, a oferta de animais previstos segue restrita, o que sustenta os preços. No cenário externo, a menor produção mundial favorece o Brasil, enquanto a Europa paga mais pela carne, embora uma eventual restrição reduza a rentabilidade.

A análise foi apresentada durante a divulgação dos resultados do Benchmarking da Estação de Monta 2025/2026, promovido pelo Grupo Aliança Assessoria e Consultoria Pecuária, em Campo Grande. Segundo o pesquisador, o setor atravessa um momento de transição, em que fatores conjunturais pressionam os preços no curto prazo, mas sem alterar os fundamentos positivos que sustentam a atividade.

“O mercado está numa transição de incertezas, mas onde eu tenho uma oferta que está dando sustentação ao equilíbrio de mercado nesse momento”, afirmou.

Nova cota chinesa deve reaquecer o mercado a partir de setembro

O principal fator de atenção do mercado neste momento é a China. O país continua sendo o maior comprador da carne bovina brasileira, mas atrapalha o ritmo das aquisições em relação ao ano passado por conta da atual cota de importação, gerando incertezas sobre o destino de parte da produção nacional.

Segundo Thiago, essa pressão tende a permanecer entre julho e meados de setembro. A partir daí, entretanto, o mercado deve começar a reagir, mesmo antes da abertura da nova cota chinesa, prevista apenas para janeiro de 2027.

A explicação está na própria logística de exportação. Para que a carne chegue aos portos chineses no início de janeiro, os frigoríficos precisam embarcar os contêineres aproximadamente 60 dias antes, durante novembro. Antes disso, é necessário comprar os animais, realizar o abate, processar a carne, obter as certificações sanitárias e preparar os embarques.

Na prática, isso faz com que a demanda por animais terminados comece a aumentar ainda entre setembro e outubro, antecipando os efeitos da nova cota sobre o mercado brasileiro. “Esse gado tem que ser abatido e comprado em outubro. Então, a gente já começa a ter um movimento lá por setembro, outubro, gira essa nova cota China para 2027”, explicou.

Essa expectativa já aparece no mercado futuro. Segundo o pesquisador, os contratos indicam arroba acima de R$ 360 no encerramento do ano, chegando a alcançar R$ 369 nos vencimentos de janeiro. Para ele, isso sinaliza uma perspectiva mais favorável para o último trimestre, embora o comportamento do mercado continue dependendo das negociações internacionais.

Apesar das incertezas provocadas pelo mercado externo, a disponibilidade de animais prontos para reduzir continua limitada. Segundo Thiago, muitos pecuaristas reduziram o volume de animais confinados no primeiro giro em relação ao ano passado. Como consequência, os frigoríficos trabalham atualmente com escalas médias entre dois e três dias, situação que restringe a oferta e ajuda a sustentar a arroba.

Ele lembra que o mercado chegou a indicar valores próximos de R$ 325 por arroba no início de julho, mas já passou a sinalizar preços em torno de R$ 340 no fim do mês, reflexo justamente dessa menor oferta de animais terminados.

Menor oferta mundial favorecendo carne brasileira

Na avaliação do pesquisador, os fundamentos internacionais permanecem atualizados ao Brasil. Ele destaca que os Estados Unidos enfrentaram o menor rebanho bovino desde a década de 1960, enquanto Canadá e Austrália também registraram redução da produção. Esse cenário restringe a oferta global de carne bovina e amplia as oportunidades para exportadores brasileiros.

Além da China, mercados como Egito, Malásia, Filipinas e Indonésia aumentam o interesse pela carne brasileira. Ao mesmo tempoJapão e Coreia do Sul seguem em negociação para abertura do mercado ao produto nacional.

Outro ponto abordado por Thiago foi o mercado europeu. Embora represente menor participação nas exportações brasileiras de carne bovina quando comparado à China ou aos Estados Unidos, o bloco paga pelos cortes um valor significativamente superior ao de outros compradores.

O tema ganhou ainda mais relevância europeia após a União confirmar, em junho, a retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e outros produtos de origem animal ao bloco, medida que entra em vigor em 3 de setembro. A decisão foi motivada pela avaliação de que o país não apresentou aprovação suficiente sobre o cumprimento das critérios europeus relacionados ao controle do uso de antimicrobianos na produção animal. O governo brasileiro contesta a decisão e negocia sua reversão.

Na avaliação do investigador, uma eventual restrição europeia afeta mais a rentabilidade do que o volume embarcado. Segundo ele, enquanto mercados como a China remuneram a carne brasileira em torno de US$ 6,50 por quilo e países como Egito e Irã pagam entre US$ 4 e US$ 4,50, compradores europeus chegam a desembolsar entre US$ 8 e US$ 10 por quilo.

“Eu tenho um faturamento mais alto com a Europa”, inspirado. Por isso, caso a restrição permaneça, a tendência é de redução dos prêmios pagos pelos frigoríficos aos pecuaristas, afetando principalmente o valor gerado pelas exportações, mais do que o volume comercializado.

A gestão passa a ser tão importante quanto à genética

Para Thiago Bernardino, a competitividade da pecuária brasileira deixou de depender apenas dos ganhos de produtividade dentro da portaria. Ele retoma a atividade em quatro pilares: produção, pessoas, gestão financeira e negociações.

Na produção entram fatores como genética, manejo, nutrição, sanidade e qualidade das pastagens. Já a gestão envolve controle rigoroso de custos, uso de informações para tomada de decisão, capacitação de mão de obra e estratégias de comercialização, incluindo ferramentas de proteção de preços.

O pesquisador ainda aponta a segurança jurídica como um desafio crescente para a atividade nos próximos anos. Na avaliação de Thiago, Mato Grosso do Sul tornou-se um dos principais exemplos de transformação pela qual passa a pecuária nacional.

Segundo ele, a atividade vem aumentando a produtividade mesmo ocupando áreas menores, resultado da adoção crescente de tecnologia e da necessidade de disputar espaço com culturas como soja, milho, florestas plantadas, citros e amendoim. “O Mato Grosso do Sul precisou subir a régua”, resumiu.

Para o pesquisador, o avanço do rendimento de prejuízo, da produtividade por hectare e da qualidade dos animais demonstra que o crescimento da pecuária estadual depende cada vez menos da expansão das áreas de pastagem e cada vez mais de eficiência, gestão e tecnologia.

Em sua avaliação, esse processo coloca Mato Grosso do Sul entre os estados que melhor representam a evolução da pecuária brasileira, mostrando que uma competitividade futura será construída principalmente por meio da intensificação da produção e da profissionalização da gestão das propriedades.

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