No mapa atualizado, região faz parte do Tiradentes, mas moradores não querem a mudança
No Google Maps, procure pelo Jardim Flamboyant, em Campo Grande, e o resultado pode causar estranhamento. O nome praticamente distante do mapa. A área agora surge como parte do Tiradentes. Entregas, CEPs, documentos e aplicativos seguem o mesmo caminho. Mas, para quem vive ou circula pela região há décadas, anular o nome da árvore de flores vermelhas é quase impossível.
O Jardim Flamboyant, em Campo Grande, enfrentou um apagamento gradual de sua identidade. No Google Maps, uma área aparece como parte do bairro Tiradentes, mas moradores resistem ao nome oficial. A região abriga os loteamentos Jardim Flamboyant I e II, reconhecidos pela Planurb dentro do Tiradentes. Parte da resistência vem do passado do bairro, associada à violência. Para moradores antigos, o nome vai além da localização e representa pertencimento e história familiar.
Na margem direita da Avenida Ministro João Arinos, a Praça do Flamboyant ainda resiste como uma espécie de testemunha dessa identidade. Ao redor dela, moradores mais antigos continuam dizendo que vivem no Flamboyant, mesmo quando sistemas digitais insistem em responder Tiradentes.
O mestre de obras Aldo Cardoso, de 46 anos, trabalha na região há mais de 25 anos e não tem dúvidas sobre o nome pelo qual sempre conheceu o lugar. “Sempre foi Flamboyant. Acho que, na verdade, desde quando foi construído. Aqui, se não me engano, foi a Inco que construiu este residencial, há mais de 30 anos, talvez 30 ou 35 anos. E eu sempre fui conhecido como Flamboyant.”
Para Aldo, porém, a mudança não chega a provocar grande impacto pessoal. Ele trabalha no local, mas não mora ali. “Na identidade do bairro, sendo Tiradentes ou Flamboyant, acho que dá na mesma. Essa é a minha opinião. Como a gente não mora aqui, não faz muita diferença na prática.”
A discussão não é exatamente nova. Em 2024, o Campo Grande News mostrou que uma confusão entre bairros, loteamentos, residenciais e outros parcelamentos se repete por toda cidade. Naquele momento, a Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano) explicou que a Capital tinha oficialmente sete regiões urbanas, 74 bairros e 865 parcelamentos nomeados.
Essa diferença ajuda a entender porque alguém pode dizer que mora no Flamboyant, enquanto um documento ou aplicativo aponta Tiradentes. O bairro é uma divisão territorial oficial mais ampla. Dentro dele podem existir loteamentos, residenciais e outros parcelamentos que, com o passar do tempoganham identidade própria e passam a ser reconhecidos pela população quase como bairros independentes.
Foi justamente assim que o bairro com nome de árvore, consolidado pela construtora paulista Inco, ficou no cotidiano de seus moradores. A construção dessa identidade passa pelo endereço, pela praça, pelas relações entre vizinhos e até por uma antiga divisão, nem sempre escrita no mapa, entre o Flamboyant e o Tiradentes.
Maria Edna da Silva, de 65 anos, mora em Tiradentes e levou os netos de bicicleta até o bairro vizinho porque a área de lazer mais próxima de sua casa estava fechada com cadeado. Para ela, existe a separação, mesmo que os dois lugares estejam praticamente grudados. “Bairro é bairro, mas aqui sempre foi extravagante. Para mim nunca teve diferente. A divisão é só por uma rua, mas parece que para eles tem diferença, sim.”
Essa diferença fica ainda mais evidente na fala de quem chegou recentemente à região. Natural de São Paulo, o engenheiro Yago Nardi, de 32 anos, mora há apenas um ano no local. Quando procurava uma casa, ouvia repetidamente o nome Jardim Flamboyant. Na internet, porém, encontrou outra realidade.
“No início, quando eu estava procurando uma casa e ainda nem tinha vindo aqui, as pessoas e as imobiliárias falavam: ‘Jardim Flamboyant, Jardim Flamboyant. Pesquisa casa no Jardim Flamboyant’. Mas eu pesquisei no Google e essa área não aparecia. Era como se o Jardim Flamboyant não existisse mais no Google Maps.”
Segundo Yago, no mapa aparece apenas o Tiradentes, abrangendo toda a região. A dificuldade era tanta que uma pessoa chegou a desenhar para mostrar onde, afinal, ficou o Flamboyant. “Uma vez, uma pessoa chegou a me explicar desenhando e disse: ‘Não, o Jardim Flamboyant é este quadradinho aqui’. Porque, procurar sozinho, era difícil encontrar.”
A resistência dos antigos moradores não nasce apenas de uma preferência pelo nome. Por parte, ela também está ligada à história e à imagem que durante anos estiveram associadas a Tiradentes.

Wilson Marques, de 83 anos, brinca que é o “zelador” da Praça. Para ele, houve uma época em que dizer que morava no Tiradentes carregava um peso negativo. “O Tiradentes era sinônimo de favela, era perigoso, e ninguém gostava de ser associado a isso. Era aquela coisa: ‘Você mora no Tirão?’. Já o Flamboyant era um nome que existia quando a gente chegou aqui e tinha essa característica, inclusive com a Praça do Flamboyant. Então o nome ficou.”
Wilson, porém, também vê limites nessa tentativa de estabelecer fronteiras entre uma área e outra. “É muito relativo isso. O que você vai alterar no conjunto geral da coisa? O que é Tiradentes e o que é Flamboyant? Os bairros vão crescendo, vão se misturando uns com os outros e chega um momento em que você já nem sabe direito onde começa um e termina o outro.”
A corretora Adriana Sanches Carrelo, de 57 anos, conhece a região há 27 anos e também relaciona a resistência ao nome Tiradentes com a fama que o bairro carregou no passado.
“Eu até costumo falar que o Tiradentes era um bairro muito perigoso. Às vezes, quando você dizia que morava no Tiradentes, havia certo preconceito. O Damha, por exemplo, está no Tiradentes. Então acho que, às vezes, as pessoas não aceitam muito essa associação.”
Segundo ela, essa percepção já chegou até as situações práticas do cotidiano. “Quando você pede um Uber em determinado horário, de madrugada, por exemplo, para ir ao aeroporto ou à rodoviária, pode ficar mais complicado. Você fala Tiradentes e nem todo mundo aceita.”
Adriana admite que o Tiradentes mudou e se tornou uma referência territorial muito mais ampla. No mercado imobiliário, uma busca pelo nome abre hoje uma grande variedade de opções.

Mas o Flamboyant, para ela, continua sendo mais do que uma localização. “A gente já se acostumou com o Flamboyant, com a Praça do Flamboyant. Então, para mudar, acho que a gente sente um pouco.”
A ligação também passa pela própria história da família. As filhas cresceram na região e os parentes viveram uns dos outros. “Eu moro aqui, na mesma rua mora minha sogra e, ao lado, mora minha cunhada. Há muitas famílias assim. Por isso a gente costuma dizer que o Flamboyant é uma família.”
É importante lembrar que há dois anos, o Planurb já destacava que nomes reconhecidos pelos próprios moradores carregam valor social porque representam pertencimento. Um parcelamento pode fazer parte oficialmente de um bairro maior e, ainda assim, construir uma identidade própria ao longo das décadas.





