Bullying na escola: como a educação pode mudar essa cultura

Sabemos que um escola reflete a estrutura e a dinâmica da sociedade, ou, em outras palavras, a cultura em que vivemos. E a cultura dominante, que prevalece na estrutura desigual e nas relações entre as pessoas na sociedade, é de natureza violenta. Predominaram as vozes e os interesses dos mais fortes, mais poderosos e espertos, capazes de impor seus desejos pela truculência ou pelo autoritarismo.

No ambiente escolar, valores como competição e individualismo são cultivados através de falas e ações de mestres e alunos, e o que se destaca nas interações entre estes últimos é a busca por popularidade e liderança. Reflexo do que ocorre, por exemplo, tanto no nível institucional quanto no sociopolítico. Combatendo os mais vulneráveis, os percebidos (ou percebidos) como mais fracos, agressores e apoiadores promovem sua suposta “superioridade” e popularidade ao se engajar em ações de humilhação, desprezo e violência física sistemática contra aqueles eleitos como vítimas ideais.

Semelhanças com o que ocorre em diversos outros contextos sociais não são mera coincidência, mas sim a límpida demonstração de que a cultura do individualismo e da violência atravessa todos os cenários sociais. Mas se existe um contexto privilegiado para promover uma transformação cultural significativa no sentido da valorização da paz, da ética, da empatia e da cooperação entre os seres humanos, esse contexto pode ser exatamente a escola.

Da educação infantil à universidade, as instituições educativas podem e devem trabalhar nessa direção. Por exemplo, interromper uma aula para conversar com os alunos sobre o que está acontecendo em uma situação de conflito não é, absolutamente, uma perda de tempo. É permitir que temas como justiça, respeito, solidariedade e empatia sejam incluídos e planejados como parte essencial de um currículo que não inclua apenas conhecimentos acadêmicos, mas também aprendizagem para viver em sociedade, para desenvolver uma pró-socialidade que possa favorecer um mundo menos hostil e estressante, e, portanto, melhor de se viver.

Será que isso é utopia? Bem, a utopia é importante para nos apontar a direção, mas cabe a nós, todos — famílias, professores, gestores e governantes — promover a transformação cultural, sem a qual a violência se perpetua e se agrava a cada dia nos ambientes escolares. No âmbito das salas de aula, os professores precisam assumir a posição de educadores e adotar práticas pedagógicas de caráter cooperativo e dialógico, cujos efeitos positivos para o desenvolvimento cognitivo e socioafetivo têm sido amplamente comprovados cientificamente. Mas as tarefas tradicionais, individuais e competitivas ainda prevalecem. A pergunta que se coloca é: até quando? Até quando as escolas resistem a inovar suas práticas, introduzindo espaços de diálogo e escuta para abordar temas como a importância da justiça, da ética, do respeito, da empatia e da democracia como forma de convivência social e política?

Aproveito este espaço para convidar pais e educadores para o trabalho relevante e urgente de conversar, de maneira acolhedora e dialógica, com crianças e adolescentes sobre este assunto. Sem uma mobilização real nessa direção, continuaremos a testemunhar agressões e violências extremas em um ambiente que deveria ser caracterizado pela coconstrução de conhecimentos, pela coconstrução da democracia e, por que não dizer, pela coconstrução de um mundo mais feliz.

Ângela Uchôa Branco é orientadara no PPGPDE/UnB (Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento Humano e Escolar) e no Labmis-UnB.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

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