Spray de pimenta: delegado alerta sobre riscos e uso

Sala Lilás identifica maior vulnerabilidade durante deslocamentos diários e após o fim de relacionamentos

Proteção às mulheres exige mais que equipamentos de defesa, alerta delegado
Mulher aguarda atendimento na Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

A possibilidade de carregar um equipamento de defesa pessoal pode representar uma oportunidade de fuga em uma situação de violência, mas está longe de resolver os principais riscos enfrentados pelas mulheres. Nas Salas Lilás da Polícia Civil, os relatos apontam que a maior vulnerabilidade ocorre nas mudanças diárias entre casa, trabalho e escola e após o fim de relacionamento, quando se intensificam episódios de perseguição e intimidação. A coordenadora das unidades, a delegada Elaine Cristina Ishiki Benicasa, defende que o acesso ao spray de pimenta deve ser acompanhado por políticas públicas de prevenção e proteção às mulheres.

A delegada coordenadora das Salas Lilás da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, Elaine Benicasa avaliou com cautela a Lei nº 15.474, que autoriza o uso de spray de pimenta por mulheres para defesa pessoal. Segundo ela, o uso inadequado pode colocar em risco a própria vítima, especialmente em ambientes fechados, e defendeu que a medida seja acompanhada por políticas públicas de prevenção e proteção, e não apenas soluções paliativas.

Ao comentar a Lei nº 15.474, que autoriza a comercialização e o uso do produto por mulheres maiores de 18 anos, Elaine Benicasa afirma que a medida deve ser comprovada com cautela. Segundo ela, embora a proposta tenha uma finalidade positiva, o uso inadequado do instrumento pode colocar em risco a própria vítima e outras pessoas ao seu redor.

“A boa intenção da lei não elimina a necessidade de preparação. Mesmo entre policiais, o uso desse tipo de instrumento exige treinamento específico. É preciso conhecer a direção da aplicação, o ambiente adequado e as consequências do seu uso”, afirma.

A delegada alerta que, em uma situação de agressão, fatores como medo, adrenalina e proximidade física aumentam significativamente a possibilidade de o spray atingir quem tenta se defender.

“Nessas circunstâncias, a chance de o produto atingir a própria vítima pode ser muito alta. As consequências são graves, como visão turva, desmaios e até complicações respiratórias graves, dependendo da ocorrência de cada pessoa”, diz.

Ela também chama atenção para os riscos de utilização de equipamentos em ambientes externos. Como exemplo, cita uma situação de importunação sexual dentro de um ônibus. Segundo a delegada, ao acionar o spray nesse ambiente, a substância pode atingir não apenas o agressor, mas todos os passageiros.

“Mulheres, crianças, bebês e outras pessoas inocentes podem ser atingidas, e cada organismo reage de uma forma diferente. Não basta ter esse tipo de instrumento; é fundamental saber utilizá-lo”, ressalta.

Proteção às mulheres exige mais que equipamentos de defesa, alerta delegado
Elaine Cristina Ishiki Benicasa coordena como Salas Lilás da Polícia Civil de MS (Foto: Paulo Francis)

Para Elaine Benicasa, o enfrentamento da violência contra a mulher deve priorizar ações preventivas e políticas públicas efetivas.

“É importante que as medidas de proteção não se limitem a soluções paliativas. Precisamos de medidas eficazes, eficientes e externas à prevenção, e não apenas de iniciativas que tenham impacto midiático”, conclui.

Interior de MS – As Salas Lilás atuam em delegacias do interior de Mato Grosso do Sul e oferecem atendimento especializado a mulheres em situação de violência. Segundo a delegada, não há relatos recorrentes de medo de sair sozinha, mas é comum que vítimas se relacionem com insegurança mesmo em ambientes considerados seguros. Há também situações de violência relacionadas a deslocamentos entre casa, trabalho e escola.

O período após o fim de um relacionamento também concentra um grande número de ocorrências. Nessa fase, são frequentes os casos de stalking, quando o agressor não aceita o termo e passa a perseguir uma mulher, acompanhando suas deslocamentos e surgindo de forma inesperada em locais que ela frequenta. “Essa fase de término recente é um dos momentos que mais gera insegurança para as mulheres”, afirma.

A delegada também cita como pontos de atenção locais com pouca circulação de pessoas e baixa iluminação, especialmente à noite. Entre as principais reclamações estão a espera por transporte coletivo ou por veículos de aplicativo e o uso desses meios, locais onde também ocorreram registros de importunação sexual e até de estupro.

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