A prisão de Maycon Roslen de Melo, diretor do PTran (Presídio de Trânsito de Campo Grande), investigado por monitorar a ex-companheira com um rastreador escondido no carro dela, declarou uma preocupação que pode parecer distante, mas está a poucos cliques de qualquer pessoa.
Rastreadores veiculares vendidos por menos de R$ 32 em plataformas de comércio eletrônico preocupam especialistas pelo risco de uso em casos de perseguição e violência doméstica. Celulares iPhone e Android possuem ferramentas para detectar alguns dispositivos Bluetooth, mas rastreadores com GPS e chip não aparecem nesses sistemas. A recomendação é operar o veículo fisicamente e, ao encontrar equipamento suspeito, fotografá-lo e registrar o boletim de ocorrência.
Uma pesquisa feita pela reportagem em plataformas de comércio eletrônico encontrou dispositivos anunciados por R$ 31,99, além de modelos de R$ 54 e versões mais completas, com GPS, bateria de longa duração e monitoramento em tempo real, por cerca de R$ 160. Alguns têm o tamanho de um chaveiro, outros cabem na palma da mão e podem ser presos à lataria por um ímã potente.
Embora sejam comercializados para fins específicos, como localização de veículos roubados e gestão de frotas, esses equipamentos também podem ser usados para perseguir e vigiar vítimas de violência doméstica.
Mas afinal, existe alguma forma de descobrir se alguém está monitorando suas posições?
O primeiro passo é olhar o próprio celular. Muita gente não sabe, mas celulares iPhone e Android possuem ferramentas que permitem identificar alguns tipos de rastreadores. Eles não localizam todos os dispositivos existentes, mas podem ser o primeiro sinal de que algo está errado.
Se você usa iPhone – O recurso já vem instalado no aparelho e funciona por meio do aplicativo Buscar.
Se uma AirTag ou outro rastreador compatível estiver acompanhando suas posições sem autorização, o próprio celular costuma exibir uma mensagem informando que um “Item desconhecido foi detectado se movido com você”.
Caso isso aconteça, basta tocar na notificação. O iPhone mostrará um mapa subterrâneo por onde aquele dispositivo acompanhou suas posições e permitirá que o rastreador declare um som, facilitando encontrá-lo caso esteja escondido no carro, na bolsa ou em outro objeto.
Mesmo que nenhuma notificação seja solicitada, ainda é possível fazer um manual de conferência. Abra o aplicativo Buscar, toque na aba Itens e veja se há algum acessório desconhecido localizado nas proximidades.
Se você usa Android – Os aparelhos Android mais recentes também contam com uma ferramenta semelhante.
Abra as Configurações do celular e utilize a barra de pesquisa. Digite palavras como “rastreador”, “detector de rastreador” ou “alertas de rastreadores desconhecidos”. Dependendo da marca do aparelho, o nome da função pode variar.
Se o recurso estiver disponível, é possível fazer uma busca manual pelos dispositivos Bluetooth próximos e também ativar alertas automáticos caso um rastreador passe a acompanhar suas posições.
Mas atenção: a maioria dos rastreadores de carro não aparece no celular. Os recursos disponíveis no iPhone e no Android funcionam principalmente para AirTags e outros rastreadores que utilizam Bluetooth.
Já muitos rastreadores veiculares vendidos na internet, inclusive alguns anunciados por pouco mais de R$ 30, funcionam de outra maneira. Eles utilizam GPS e um chip de telefone para enviar a localização diretamente ao celular de quem instalou o equipamento.
Como não dependem de Bluetooth, esses aparelhos não aparecem no aplicativo nem geram alertas automáticos. Por isso, mesmo que o celular não encontre nada, ainda é importante verificar o veículo.
Onde procurar um rastreador?
Os modelos mais comuns encontrados na internet possuem uma imposição de alta fixação e podem ser instalados em poucos segundos.
Os locais mais utilizados são:
- embaixo da lataria;
- atrás dos para-choques;
- próximo às caixas de roda;
- dentro das portas-malas, atrás do acabamento;
- perto da bateria;
- conectado à entrada OBD, localizado abaixo do volante.
Alguns equipamentos têm tamanho semelhante ao de uma carteira, enquanto outros lembram um chaveiro.
Também vale a pena desconfiar quando alguém demonstra saber exatamente onde você está ou aparece repetidamente em locais que você frequenta, mesmo sem receber sua localização.
O que fazer para encontrar um dispositivo?
Se encontrar um equipamento suspeito, a orientação é manter a calma e evitar destruir ou jogar o aparelho fora.
O ideal é fotografar o rastreador ainda no local onde ele estava instalado, registrando como foi encontrado. Sempre que possível, preserve o equipamento, já que ele pode conter número de série, chip telefônico e outras informações capazes de ajudar na investigação.
Em situações de violência doméstica, perseguição, ameaças ou descumprimento de medida protetiva, a recomendação é procurar imediatamente a Polícia Civil e registrar um boletim de ocorrência. O rastreador pode se tornar uma prova importante para identificar quem fez a instalação e fortalecer a responsabilização criminal do autor.


