Ovino pantaneiro: leite pode salvar raça em extinção

Estudo aponta conclusões como alternativa para gerar renda e conservar a genética de raça exclusiva da região

Leite pode ampliar rebanho e salvar animal pantaneiro ameaçado de extinção
Ovino pantaneiro da fazenda da UFGD (Foto: Arquivo pessoal)

Menos de 400 ovinos pantaneiros permaneceram em rebanhos controlados em Mato Grosso do Sul. Sem um mercado que gera renda aos criadores, esse grupo genético corre risco de desaparecer. Como alternativa para reverter esse cenário, pesquisadores da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) propõem transformar o leite desses animais em coleções de alto valor agregado, capazes de aumentar a ampliação dos rebanhos e contribuir para sua conservação.

Pesquisadores da UFGD propõem o aproveitamento do leite do ovino pantaneiro para produção de derivados como queijos e iogurtes como estratégia para viabilizar economicamente a criação da raça e evitar sua extinção. Com menos de 400 animais em rebanhos controlados em Mato Grosso do Sul, o grupo genético enfrenta risco de desaparecimento por falta de mercado, consanguinidade e ausência de reconhecimento oficial pelo Ministério da Agricultura.

Considerado um grupo genético adaptado às condições do Pantanal e do Cerrado, o ovino pantaneiro reúne características provenientes de longas gerações de seleção natural. Segundo o professor Fernando Miranda de Vargas Junior, doutor em Zootecnia e coordenador da pesquisa, esses animais suportam melhor o calor, os períodos de seca e de cheias, além de apresentarem maior resistência a enfermidades e verminoses, o que reduz a necessidade de medicamentos, alimentação especial e outros insumos normalmente usados ​​em raças importadas.

“A gente está precisando de uma genética que responda rapidamente às mudanças climáticas, e a pantaneira é uma alternativa que ainda temos”, afirma Fernando Miranda.

Descoberta – A proposta de investimento no leite é resultado de 22 anos de pesquisas, que foram realizadas em 2004, quando os professores Fernando Miranda de Vargas Junior e Charles Martins iniciaram um levantamento em propriedades do Pantanal. Após dois anos de estudos e análises genéticas, a equipe realizou o primeiro registro científico do ovino Pantaneiro, confirmando que esses animais possuíam características genéticas próprias e específicas das demais populações de ovinos criados no Brasil.

Em 2006, análises genéticas confirmaram que os ovinos pantaneiros possuíam características específicas das demais populações criadas no país. Desde então, foram elaborados mais de 30 dissertações, 10 teses e cerca de 50 artigos científicos sobre genética, reprodução, carne, couro, lã, leite e adaptação desses animais.

Leite pode ampliar rebanho e salvar animal pantaneiro ameaçado de extinção
Fernando Miranda durante avaliação da qualidade da carne e da carcaça do cordeiro (Foto: Arquivo pessoal)

Leite como estratégia – Durante as pesquisas, a equipe acordou uma linhagem de animais com leiteira. A descoberta levou os pesquisadores a enxergar no leite uma oportunidade para transformar a conservação da genética em uma atividade economicamente viável.

O leite apresenta elevado teor de sólidos, excelente rendimento industrial e potencial para a fabricação de queijos especiais, ricota, iogurte, doce de leite, sorvetes e outros produtos de maior valor agregado. Segundo o pesquisador, o objetivo não é comercializar o leite in natura, mas estimular a produção de derivados capazes de aumentar a renda dos produtores.

Além da qualidade tecnológica, o leite também possui características nutricionais diferenciadas. Conforme o professor, apresenta cerca de 8% de proteína, aproximadamente o dobro do leite bovino, e glóbulos de gordura menores, característica que favorece a digestibilidade.

O pesquisador explica que a legislação brasileira já permite que pequenos produtores fabriquem com base na própria propriedade por meio do selo artesanal, agregando valor ao produto e diminuindo a dependência de intermediários. “Ele produz, transforma e entrega o produto já com valor agregado”, resume.

Fernando Miranda acredita que o ovino pantaneiro pode contribuir também para o fortalecimento do turismo e da gastronomia regional. Para o pesquisador, a produção de queijos, doces e outros derivados do leite pode se tornar símbolo da gastronomia local, agregando valor à produção e ajudando a consolidar uma marca associada ao Pantanal e ao Cerrado.

Oportunidade – Para avaliar o potencial econômico da atividade, a equipe elaborou um plano de negócios baseado em uma pequena propriedade rural. A simulação mostrou que um produtor com cerca de sete hectares e um rebanho de aproximadamente 30 animais, sendo 20 ovelhas em lactação, poderia obter renda em torno de três períodos mínimos mensais apenas com a produção de queijos, funcionando como complemento da renda familiar. Neste caso, também ocorre a produção de carne, pois os cordeiros são comercializados.

Na avaliação do pesquisador, esse modelo pode fortalecer a agricultura familiar, estimular a permanência do produtor no campo e criar incentivos econômicos para ampliar os rebanhos.

“Sem mercado, não há conservação. Sem conservação, não há leite”, resume o pesquisador ao defender que a valorização dos derivados é o caminho para preservar a genética do ovino Pantaneiro.

Leite pode ampliar rebanho e salvar animal pantaneiro ameaçado de extinção
Ovelhas durante a ordem (Foto: Arquivo pessoal)

Reconhecimento pendente – Hoje, a maior parte dos animais é equipada com rebanhos da UFGD, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul). Como pertencem a instituições públicas, esses rebanhos enfrentam dificuldades para comercializar reprodutores e ampliar a criação, bem como para mantê-los.

Outra entrada é o reconhecimento oficial do ovino pantaneiro. Embora o grupo tenha sido identificado pelas pesquisas da UFGD, ele ainda não é reconhecido como raça pelo Ministério da Agricultura. Para o pesquisador, a certificação proporcionará mais segurança aos criadores, facilitará a comercialização de animais e contribuirá para a expansão dos rebanhos.

Enquanto isso, localizar exemplares não Pantanal tornou-se cada vez mais difícil. Em uma expedição recente, pesquisadores encontraram ovinos pantaneiros em apenas cinco das cerca de cem propriedades visitadas.

Além da substituição gradual por raças exóticas, os pesquisadores alertam para o risco de consanguinidade. Com rebanhos reduzidos, aumenta a dificuldade de realizar cruzamentos entre animais sem parentesco, comprometendo a variabilidade genética ao longo do tempo. Para minimizar esse problema, as instituições de pesquisa realizam a troca de ovelhas e reprodutores entre seus rebanhos, estratégia adotada para preservar a diversidade genética e contribuir para a conservação.

Leite pode ampliar rebanho e salvar animal pantaneiro ameaçado de extinção
Ovelhas amamentam seus filhotes (Foto: Arquivo pessoal)

Possibilidades de uso – Os estudos conduzidos pela UFGD também buscam capturar integralmente os ovinos pantaneiros. Além dos resultados do leite e da carne, pesquisadores investigam aplicações para a lã e o sebo dos animais.

Entre os resultados estão o desenvolvimento de sabonetes produzidos com gordura ovina, pesquisas sobre o uso da lã em concreto e telhas de cimento e estudos que avaliam seu emprego como cobertura biodegradável do solo na agricultura. Segundo Fernando Miranda, os experimentos indicaram redução da temperatura do solo, maior retenção de água e melhoria das condições microbiológicas, apontando novas possibilidades de aproveitamento sustentável da produção.

Para o pesquisador, todas essas iniciativas seguem o princípio de criar valor econômico para um patrimônio genético desenvolvido ao longo de gerações no Pantanal. “A gente ainda vai se aposentar e não terá tudo o que precisa estudar sobre o ovino pantaneiro”, afirma.

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