Brasil pode contornar aumento de tarifas dos EUA recorrendo a novos mercados, diz especialista

Embora a nova tarifa seja um golpe para o comércio do Brasil, o gigante sul-americano tem a capacidade de reduzir a sua dependência do mercado dos EUA e expandir os seus destinos de exportação no meio de uma reestruturação do comércio internacional, disse um especialista brasileiro.

São Paulo, 25 jul (Xinhua) — O Brasil tem a oportunidade de contornar o último aumento de 25% nas tarifas dos EUA, diversificando suas exportações e abrindo novos mercados na China e na União Europeia, disse um analista brasileiro.

Embora a nova tarifa seja um golpe para o comércio do Brasil, o gigante sul-americano tem a capacidade de reduzir a sua dependência do mercado dos EUA e expandir os seus destinos de exportação no meio de uma reestruturação do comércio internacional, disse Leonardo Trevisan, cientista político e professor de relações internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing, a melhor faculdade do Brasil para estudos de marketing e publicidade.

O aumento das tarifas afetará aproximadamente 2.700 produtos agrícolas e processados, levando a perdas potenciais de quase 11 bilhões de dólares em vendas, disse Trevisan à Xinhua em entrevista, citando números da Câmara de Comércio Brasil-EUA.

Ele descreveu o impacto como “significativo”, pois afeta principalmente cadeias de abastecimento integradas, uma vez que mais de 10 mil empresas brasileiras têm processos de produção conjuntos com empresas norte-americanas.

Segundo Trevisan, a principal resposta estratégica do Brasil à medida tarifária deveria ser a diversificação de seus mercados de exportação.

Em agosto de 2025, alguns produtos brasileiros enfrentaram tarifas de até 50% durante a primeira fase de uma guerra comercial. As exportações do Brasil para os Estados Unidos despencaram 6,8% em 2025, mas suas vendas globais totais aumentaram 3,5%.

“Existem alternativas para as exportações brasileiras e esse foi um dos fatores mais importantes para forçar as negociações durante a primeira rodada de aumentos tarifários”, disse ele.

Quanto às consequências políticas da disputa comercial EUA-Brasil, Trevisan disse que era “difícil medir com precisão” o quanto isso influenciará as eleições presidenciais do Brasil. O certo é que ocorrem em meio a laços altamente politizados entre Brasil e Estados Unidos.

A administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores veem as tarifas dos EUA como uma pressão política estrangeira sobre os eleitores. De acordo com Trevisan, a intromissão dos EUA pode sair pela culatra, uma vez que questões relacionadas à soberania nacional desempenham um papel importante na forma como os brasileiros votam.

“As atitudes nacionalistas têm um peso eleitoral significativo no Brasil”, disse ele, observando que existe uma percepção profundamente enraizada entre os eleitores de que “eu sou o chefe da minha própria casa”.

Quanto à estratégia comercial de Washington, Trevisan descartou a possibilidade de as novas tarifas serem especificamente dirigidas ao Brasil, à América Latina ou aos países do BRICS.

“Não é possível dizer que as tarifas são especificamente dirigidas à América Latina ou aos BRICS. São medidas indiscriminadas que também afectam importantes aliados dos EUA, como o Japão, a Coreia do Sul e a União Europeia”, disse ele.

“Há um ressurgimento de uma atitude protecionista e isolacionista muito forte nos Estados Unidos, e Trump tirou vantagem disso”, disse ele.

Trump está a usar a política tarifária como uma ferramenta para fortalecer a sua base eleitoral, uma vez que protege os empregos americanos e aborda preocupações internas, como o aumento do custo de vida, sublinhou Trevisan.

Com isso em mente, a decisão do governo brasileiro de evitar uma resposta retaliatória precipitada foi acertada, disse ele.

O presidente e o vice-presidente disseram que o Brasil deve agir com cautela. Tomar medidas retaliatórias imediatas não seria aconselhável porque poderia reforçar a estratégia mais agressiva de Trump, disse Trevisan.

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