Uma startup que trouxe a lógica dos comparadores de voos para o frete rodoviário e o que isso revela
Com o setor pressionado pela Resolução ANTT 6.068/2025 e pelo registro do mercado de seminovos, marketplaces logísticos consolidam padrão de contratação que substituiu telefonemas em série por propostas simultâneas.
O consumidor brasileiro que precisa contratar o transporte rodoviário de veículos hoje se comporta de forma radicalmente diferente do consumidor que enfrentou a mesma tarefa há dez anos. A diferença não é na necessidade, que segue a mesma coisa. Não há processo pelo que essa necessidade foi atendida. Se antes a contratação envolveu telefones em série, orçamentos em formatos incompatíveis e decisão tomada com informação fragmentada, hoje ela transcorre em ambiente estruturado, com propostas comparáveis lado a lado, verificação prévia dos fornecedores e acompanhamento em tempo real da operação. UM Camiãoplataforma que opera no setor desde 2015, é um dos casos empresariais que ajudaram a mapear essa transformação, não por representar o setor inteiro, mas por ter atravessado o período em que a mudança se consolidou e por ter atingido, segundo a própria empresa, mais de 250 mil veículos transportados por sua rede em rotas interestaduais nesse intervalo.
O público faz parte de um movimento mais amplo. A digitalização da logística rodoviária brasileira alcançou vários nichos na última década, com marketplaces se consolidando em segmentos como cargas fracionadas, frete dedicado e mudança residencial. O transporte de veículos por carreta ceganheira foi um dos últimos a se reorganizar em torno desse modelo, e sua adesão coincidiu com o amadurecimento de um novo perfil de consumidor logístico no país.
O consumidor que passou a comparar
O ponto de partida da análise não é comportamento do próprio cliente. Estudos de comportamento do consumidor digital brasileiro nos últimos anos convergem em uma conclusão: quem contrata serviços online hoje espera comparar antes de decidir. Na prática, que já era padrão em setores como turismo (com hotéis e passagens), varejo (com preços de produtos) e serviços financeiros (com taxas de juros), se estendeu naturalmente para categorias logísticas.
O consumidor que se acostumou a comparar em outras frentes passou a rejeitar processos em que a contratação exige aceitar a primeira proposta recebida sem visibilidade de mercado. Fornecedores que insistiram em manter a lógica antiga foram, aos poucos, perdendo relevância para plataformas que oferecessem o padrão de comparação que o cliente já reconhecia de outros contextos.
O que a experiência da Camion documenta
No caso da Camion, a estrutura básica opera em torno de um modelo comum aos marketplaces logísticos. O cliente preenche um formulário exclusivo com origem, destino e dados do veículo a ser transportado, e recebe três cotações imediatas de transportadores que integram a rede da plataforma. Segundo dados operacionais divulgados pela empresa, a diferença entre a proposta mais alta e a mais baixa para o mesmo trajeto pode chegar a 30%, uma amplitude que reflete variações legítimas entre estratégias comerciais, capacidade ociosa e rotas habituais de cada transporte naquele momento específico.
A rede é composta por mais de 30 transportadoras parceiras especializadas, verificadas anteriormente pela plataforma quanto à regularidade do CNPJ, ao registro no RNTRC junto à ANTT, ao histórico de entregas anteriores e às avaliações reais de clientes. Toda a rede opera com seguro inclusive para o veículo durante a trajetória e rastreamento durante o percurso. Essa estrutura padronizada é o que permite ao cliente comparar propostas dentro de um universo já atualizado, e a escolha entre elas se dá por preço, prazo e modalidade, e não por previsão operacional do fornecedor.
O novo marco regulatório e sua influência
Um segundo elemento que ajuda a explicar o crescimento do modelo é a evolução do marco regulatório. A Resolução ANTT 6.068/2025, publicada em julho do ano passado, tornou obrigatória a contratação dos seguros RCTR-C (Responsabilidade Civil do Transportador Rodoviário de Carga) e RCV (Responsabilidade Civil do Veículo) para transportadores com RNTRC ativo. A comprovação de políticas vigentes passou a ser requisito para manutenção do registro, e a fiscalização foi intensificada com integração eletrônica entre a ANTT e as fiscalizações.
Para o consumidor, essa mudança elevou o padrão mínimo do setor. Transportadoras com RNTRC ativa em 2026 operam, obrigatoriamente, com cobertura formal para a carga transportada. A verificação prévia de que as plataformas como a Camion mantêm sobre sua rede se converteu, na prática, em uma camada adicional de proteção que confirma a conformidade com esse marco em cada operação contratada.
O tamanho do mercado que sustenta a transformação
O contexto de mercado também favorece a consolidação do modelo. Segundo a Fenabrave, o Brasil emplacou mais de 5,1 milhões de veículos em 2025, com alta de 8,02% em relação ao ano anterior. O mercado de seminovos registrou registro histórico, com 4,7 veículos usados negociados para cada novo emplacado, segundo dados da Fenauto. Os eletrificados cresceram 60,8%, com mais de 285 mil unidades emplacadas no ano.
Cada uma dessas categorias gera demanda por transporte interessante. Concessionárias movimentando estoque entre unidades, revendedores independentes montando estoque a partir de leilões em outras regiões, plataformas digitais de venda direta fazendo logística reversa entre hubs regionais, compradores finais recebendo veículos adquiridos em outros estados. O volume total forma um mercado suficientemente amplo para sustentar plataformas especializadas que operam com escala.
O que se aprendeu com a década
A experiência acumulada desde 2015 revela alguns padrões. O primeiro é que a filtragem prévia dos fornecedores é o que sustenta a proposta de valor do modelo. Marketplaces que listam qualquer transportadora interessada, sem verificação, deterioram-se rapidamente em qualidade percebida. A segunda é que o acompanhamento durante a execução, e não apenas na contratação, é o que retém o cliente. Comparação simultânea de captura à primeira operação. Cumprimento do combinado captura a segunda e a terceira. O terceiro é que a integração entre plataformas e transportadoras precisa ser tecnológica, não apenas contratual. Sistemas de gestão, rastreamento, comunicação em tempo real e transmissão eletrônica de Conhecimento de Transporte (CT-e) são infraestrutura, não diferenciais.
Empresas que consolidaram esses três pontos específicos no mercado. Muitas outras que buscaram entrar em segmentos nos últimos anos não conseguiram passar para a fase inicial. O caso da Camion, com dez anos de operação contínua e mais de 250 mil veículos transportados por sua rede, é útil justamente para documentar quais escolhas operacionais sustentam a longevidade nesse tipo de negócio.
O que vem pela frente
O cenário para os próximos anos aponta para sofisticação adicional. A entrada acelerada de veículos eletrificados exige protocolos operacionais específicos, com atenção ao peso adicional das baterias, estado de carga no momento do embarque e procedimentos de transporte específicos para elétricos. A transferência do mercado de seminovos amplia a base de clientes profissionais que operam logística reversa entre estados. A abertura regulatória contínua pressionada pela integração ainda maior entre plataformas, seguranças e órgãos reguladores.
O consumidor que se acostumou a contratar por comparação simultânea não vai voltar ao modelo antigo. Isso significa que plataformas capazes de responder ao novo padrão de exigência seguem capturando a demanda, e o setor continua se reconfigurando em torno desse formato. A experiência da Camion, no nicho específico de transporte rodoviário de veículos, é um dos indicadores desse movimento, e ajuda a antecipar o boato de que outros segmentos logísticos brasileiros poderão seguir na próxima década.
