Pasteurização do passado: como a IA reescreve memórias

A pasteurização do passado não é apenas um efeito colateral técnico da automação algorítmica aplicada aos regimes de memória. É uma operação estética e infraestrutural. Ela emerge quando o design da memória, aqui entendido como prática de organizar, mediar e performar o que será lembrado ou esquecido, passa a ser prolongado por sistemas algorítmicos orientados por engajamento, fricção mínima e recompensa afetiva.

Memória, aqui, não é acervo. É moeda de troca.Quando a automação assume o gesto arquivístico, o que se altera não é apenas a superfície da imagem, mas o regime de verdade que sustenta o documento. Rugas são suavizadas. Grãos são removidos. Conflitos são neutralizados. O que resta é uma polida do passado, emocionalmente palatável, visualmente estável, culturalmente compatível com a estética versão dominante das plataformas. Não se trata de restauração. Trata-se de reconfiguração.

Nostalgia inventada e simulação de afetos

A pasteurização também se articula com as características da nostalgia inventada. O desejo por um passado não vívido, conforme descrito por Arjun Appadurai, encontra nas IAs generativas um incidente técnico.

A máquina fornece cenários, vozes, rostos e atmosferas para sustentar afetos de “saudades do que nunca foi”.

Essa nostalgia é alimentada pela retromania e por uma economia da atenção que privilegia estímulos rápidos. Nessa nova experiência do usuário (UX), a IA não reconstrói contextos; ela produz fragmentos emocionais eficientes. O afeto é calculado. A proximidade é simulada. A memória é convertida em ativo simbólico.

O resultado é um deslocamento estrutural, do testemunho para a experiência, da prova para o espetáculo, do fato acontecido para a sensação que não se teve.

A pasteurização do passado, portanto, não é apenas uma questão estética. É um problema epistemológico e arquivístico. Ela revela um design da memória que abdica do rigor documental em favor de uma estética de consumo. O arquivo deixa de operar como espaço de fricção entre passado e presente e passa a funcionar como vitrine de um passado compatível com as expectativas do usuário.

A memória torna-se produto.

E, ao se tornar um produto, perde a capacidade de sustentar a complexidade e a contradição da experiência humana e a prova disso tudo.

Charlley Luz é doutorando da escola

de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo)

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